sexta-feira, 4 de abril de 2008

Espada, Prosas sentidas

Procurei algo que me ligasse à realidade, uma resposta, um qualquer laivo de presença, algo que indicasse que ainda era tempo de lutar contra a tua indiferença. Perdi-me nas minhas estúpidas respostas politicamente correctas, era algo que não esperava mas tive que enfrentar, sentia-me como quando estamos frente a frente com o mais poderoso dos demónios, como quando a espada é a alternativa a parede. Não que algum dia acredita-se em diabos ou tentações, sempre soube que o meu pior demónio, a pior arma de destruição maciça a face da minha terra sou eu, e aceito-o com a veemência de quem não tem outra opção.
Quando a noite voltou, trouxe consigo as lembranças de que as nossas mãos, vazias agora, já foram possuidoras da intemporalidade, de uma outra entidade talvez maior e mais forte que qualquer um de nós algum dia sonhou ser… as lembranças de outras noites, de outros dias que pareciam eternos, dias em que a felicidade parecia
rebentar-nos no peito, parecia ser maior que nos próprios … Dos tempos em que os
corações batiam com a pulsante alegria de ser imortalmente eternos, de
cantarolar encurralados por algo brilhante e de levarem a todos os poros que a
pele podia suportar o perfume sublime de uma desajeitada paixão…
Em todas as recordações imperfeitas que não
fazem jus à intemporalidades do que fomos nem à profunda beleza
do teu ser perco o meu tempo, excessivamente livre de sonhos e futuro perco o
meu tempo lembrando-te preservando-te como a mais perfeita das imperfeitas
recordações que relembro e sei no meu âmago profundo que serás, para sempre, a
mais belas das minhas recordações…
Tentei tantas vezes escapar a este pesadelo, tantas vezes procurei que visses o grande e negro buraco que deixas-te no âmago soturno do meu peito, tantas vezes menti, omiti e procurei esconder este meu descontrolo… porque todos os punhais que mutilaram o meu coração ainda lá estão, bem cravados, porque por mais que ele queira renascer a esperança apenas foi capaz de ajudar a cravar mais fundo as lâminas dos meus punhais. Não sabia quão frágil podia ser, simplesmente não sabia, não sabia que podia desfazer-me em mil pedaços, desintegrar-me se te fosses, doem-me as mãos de as apertar contra o peito para não deixar que o abismo que deixas-te
alastre, para que os escombros do que sobrou de mim e da minha alma não acabem
de se desfazer em pó.
Talvez se possa dizer que deixei com isto de viver, mas enquanto me mantenho morna não morro, enquanto sorrio não revelo a ninguém a vastidão do vazio que me invade. Enquanto a vida que me abandonou não me persegue posso só ser, ser sem sentir, sem que o torpor me afogue posso ser só um ser destruído e frágil.
Continuo a perguntar-me como sobrevivo sem ti, como continuam os dias a passar se não estás a meu lado, como continuo eu aqui, sentada frente a estas velhas notas, a ser capaz de escrever sobre ti e o que sinto… Por vezes as lágrimas assolam-me a face, não consigo esconde-las… Mas magoam mais o coração que os olhos cansados… Não sou capaz de as conter…
Devia ser capaz de bater a porta, devia ser capaz de ser extremista ao ponto
de mudar de mundo, de ter uma tela limpa, sem tinta, tenho direito de fazer um
risco firme no meu quadro, mas sei que ainda terei que aprender a renascer…
Queria apenas atirar para a arca dos
pesadelos tudo o relembro de ti, fazer de todas as memórias uma recordação baça como uma manhã de nevoeiro, fazer delas algo incólume e incapaz de me magoar, mas elas insistem em ficar marcadas a fogo na minha pele na minha memória e em todos os meus sentidos…

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